Sala de Música - Uma experiência transformadora na escola pública- Por Sérgio Tück

Sala de Música - Uma experiência transformadora na escola pública

 

A escola pública muitas vezes tem se tornado sinônimo de um lugar ruim, onde só colocamos as crianças se não houver outra alternativa. Mas não... a escola pública ainda é o caminho mais curto para mudarmos a realidade de indivíduos e sociedades (80% das escolas de educação básica são públicas no Brasil), mesmo que 10 ou mais anos pareça um período longo. E a música tem um papel gigante nisso.

A escola em que estou desde 2012 é uma escola pública de EFI, em um bairro tido como um dos "piores da cidade" em questões de infraestrutura e oferta de oportunidades. Ao mesmo tempo, ela tem uma vista linda, um espaço até que interessante, o que sempre me fez pensar: "essa escola tem um baita potencial pra mudar essa realidade".

 

Aulas de música em sala convencional

Nestes primeiros anos pude fazer poucas investidas através da música na escola, até que uma decisão estranha começou a mudar as coisas. Havia um antigo projeto de violões abandonado na cidade e esses instrumentos estavam ensacados; alguns quebrados, outros apenas esquecidos. Aquilo me deu uma tristeza e o pensamento primordial que me veio foi: "se pelo menos eles tivessem sido quebrados por crianças tentando aprender a tocar...". Só sei que num impulso desse pensamento, resolvi pedir que aqueles violões todos fossem para escola (a ideia do que eu faria com eles era meio vaga naquele momento). Bom, aí começa o primeiro capítulo dessa experiência: a Música deixa de ser visita e torna-se moradora da escola. Nasce também o "Roda de Música", que é uma experiência bacana que posso contar em outra oportunidade.

O segundo capítulo, com a música já habitando a escola através dessa iniciativa, começa com um projeto audiovisual que promovi com as crianças maiores sobre como seria "a escola que queremos". Fizemos debates, anotações, gravamos vídeos e, em um deles, uma aluna mencionou que ela gostaria que houvesse uma sala de música na escola. Aquilo foi estranho a princípio. Não faço ideia, até hoje, do que raios seria uma sala de música para ela, mas naquele momento me bateu uma lembrança da sala de música que eu tive na primeira escola onde estudei: um piano, um palquinho, uma lousa com pauta inapagável e uma bancada de madeira onde sentávamos para tocar flauta, cantar o hino e ver a professora Luci tocar piano.

https://www.youtube.com/watch?v=jSAvbLuVTSM&t=559s (Escola que queremos)

Após aqueles vídeos, dois meses correram e eu fui parar em um curso que mudou muita coisa na minha vida: quatro dias de Música e Movimento em São Paulo com criaturas estelares da musicalização: Uirá Kuhlmann, Estevão Marques, Sandra Salcedo (COL) e Ana Quilez (ESP). Naqueles dias um mundo de coisa fez sentido:

  • Eu finalmente entendi na prática o que vi tanto na faculdade, nos livros para concurso e outras pesquisas: Orff, Dalcroze, Willems, Schafer, Suzuki...;
  • Vi o quanto a universidade está distante da realidade prática (seja ela boa, ruim, pública, particular, presencial, a distância...);
  • Notei que havia gente incrível do meu lado, aprendendo do zero um monte de coisas, gente que toca piano ou o que for lindamente, mas que pouco sabia sobre as pedagogias musicais ativas;
  • E o mais importante aqui: entendi o que era, para que servia e a importância de uma SALA DE MÚSICA.

Muitos dos colegas ali já tinham a sua na escola; outros não, e sofriam como eu em meio às terríveis carteiras enfileiradas. Lembro-me de que, no último dia do curso, quando voltava de ônibus para minha cidade lendo "Educação Sonora", do Schafer, escrevi uma mensagem para a coordenadora da minha escola, em pleno recesso escolar: "Quero uma Sala de Música". Claro que tinha um tom de brincadeira nessa imposição digna de uma criança mimada. Mas sabemos que toda brincadeira tem ao menos um pingo de verdade, e nesta tinha um oceano inteiro. E para minha felicidade a resposta não foi nada muito diferente de: "Vamos ver sim o que podemos fazer".

Farei aqui um parêntese importante com sugestões para quem ainda não tem uma sala do tipo:

  • Boa parte das escolas possui áreas ociosas ou depósitos em salas. Conheça bem o prédio de sua escola para sugerir o uso de algum espaço mal aproveitado;
  • Eu tive sorte de estar em uma escola de pessoas com mente e coração abertos, sei que não é regra. Mas, mesmo assim, sempre dialogue demonstrando empolgação, humildade, abertura e escuta;
  • Se estiver numa escola particular, seja empreendedor e defenda com unhas e dentes seus argumentos para viabilizar este espaço! Às vezes é importante mobilizar os pais para a escola entender melhor. E NUNCA SE ESQUEÇA de que as outras pessoas não são da sua área: mostre fotos, vídeos, experiências, explique, pois, muitas vezes, parece “coisa de doido” para eles.
  • Não há espaço? Não há possibilidades no espaço? Então ponha a criatividade para fora. Enquanto montávamos a sala, fiz aulas com boomwhackers, xilofones, percussão corporal e jogos musicais no pátio, na quadra e principalmente na própria sala, empurrando todas as carteiras. Perdia um tempo ajustando a sala? Sim. Mas é o tempo que você leva se locomovendo até uma outra sala ou então o tempo que você perde enxugando gelo tentando fazer atividades lúdico-musicais em uma sala de carteiras enfileiradas.

O importante é saber que os problemas você e a humanidade toda já conhecem. Aqui cabe ser positivo, estratégico, bem comunicativo e criativo para solucionar tais entraves espaciais, metodológicos, financeiros...

Voltando: havia uma sala em um dos prédios da escola que já havia sido uma sala de informática, depois sala de  reforço, depois acabou virando um depósito de caixas de estoque e computadores inutilizados. A diretora e a coordenadora foram como sopros divinos permitindo que nossa caravela musical trouxesse alegria. Os computadores (dos quais muitos funcionavam) foram repassados para outra escola, assim como suas mesas. As caixas foram todas para outro espaço e pronto! Tínhamos uma sala vazia.

Em algumas semanas eu possuía finalmente um espaço, que agora eu sabia exatamente para que usar. A diretora me perguntou: O que você queria que tivesse na sala? Eu falei: Algum móvel para eu colocar alguns instrumentos meus e outros que existem por aí na escola. Cadeiras? Mesas? Não queria nada disso.

Minha primeira sala possuía: instrumentos meus (como os boomwhackers na parede), alguns que a escola possuía e outros que (solicitei em anos anteriores) eram de um projeto finalizado  pela Secretaria de Educação e que foram para a escola. Tínhamos uma lousa que já estava lá. Um ventilador e uma estante em que coloquei só livros sobre música. Nossa parede era uma divisória, daquelas bem cor de burro quando foge; conversando com a criançada, tivemos a ideia de pintar o mapa-múndi nela (conto muitas histórias das viagens que faço) e pintamos com guache escolar mesmo!

 

 

No final do ano fizemos mais um trabalho de audiovisual com os alunos que iriam embora para a escola de EFII e um grupo escolheu falar sobre a sala de música. Foi muito legal! Gravamos aulas, brincadeiras e as músicas também.

https://www.youtube.com/watch?v=wAE-da67DfQ (A História da Sala e do Roda de Música) – Este vídeo contem relatos, aulas e a percepção completa desta experiência.

Mas nem tudo são flores. Nosso terceiro capítulo começa aqui. Como falei, essa escola fica num bairro pouco atendido pelo poder público. Nossa escola viveu anos de muita goteira, desprezo pelas autoridades e obras malfeitas. Resultado: os anos de 2016 e 2017 nos deixaram também com uma escola sem teto (por isso os TNTs coloridos no teto da sala) e com um telhado de metal que esquentava com o sol, fazia um ruído terrível com a chuva e que não tinha separações acústicas entre os espaços. Imagine a loucura.

 

 

Só em 2018 que a reforma finalmente começou. Nossa sala de música com seu grande mapa foi poeira abaixo e, para quem estava acostumado com ela, foram longos meses de volta às salas enfileiradas, instrumentos ensacados (esperando o fim da reforma interminável) e obras em período escolar. Imagine fazer qualquer coisa lúdica ou relacionada à concentração com um cara cortando piso com sua serra, martelando o chão ou empilhando telhas de metal.

A reforma nos possibilitou algumas mudanças na escola toda e pude, ativamente, participar de muitas delas, como deixar a escola completamente colorida (sem aquelas cores terríveis que as secretarias adoram: verde-sono, azul-pijama e amarelo-doente). A antiga sala de música tornou-se uma biblioteca nova e necessária! E, ao lado dela, a antiga sala de reforço tornou-se a nova sala de música: pouca coisa menor, mas mais colorida, ventilada e com a possibilidade de usar um ambiente externo ao lado, que nunca teve muito uso anteriormente.

Ainda estamos finalizando e provavelmente será colocada uma divisória (de novo ela) para separá-la do ambiente da biblioteca (necessário!). E são grandes as chances de também fazermos alguma arte nela: quem sabe um mapa nada convencional desta vez!

 

Por que conto tudo isso? Primeiramente para que saibam que, na escola pública, muitas vezes coisas simples são simples sim, mas, em questão de transformações, são uma epopeia! Principalmente quando a burocracia cai com seu peso todo. Mas não é motivo para desanimar. Sempre falo para os alunos, pais e colegas sobre a importância daquele espaço, daqueles instrumentos, daqueles momentos! Eles não terão isso na próxima escola (EFII) e, se quiserem, terão que lutar novamente para conquistar por lá. Até alunos antigos já vieram visitar ou me contatar para falar sobre a tristeza de voltar a ter aulas de arte debruçados sobre apostilas.

Aos polivalentes também digo: ela ficou conhecida como sala de música. Mas o espaço nos permitiu pintar, desenhar, escrever, brincar, filmar, tocar, cantar, correr, dançar, encenar... Fizemos um teatro do Pequeno Príncipe com cenário e tudo feito por eles, fazendo o maior auê na sala (mesmo sem teto!).

Hoje sabemos que ali, no tal do bairro pobre da cidade, temos uma escola com uma estrutura melhor e com um espaço pensado muitas vezes melhor do que em várias escolas pagas (pensando no comparativo clichê de que escola privada é melhor). Penso hoje que se tratarmos a escola como nossa casa (de verdade – afinal, você não deixa a sua casa suja, bagunçada ou mal organizada), podemos voltar a nos sentir orgulhosos de falar: "Sou professor naquela escola! Conhece? Fazemos coisas incríveis lá!", como qualquer professor faz quando se orgulha de fazer parte de uma grande escola. E sei, na prática, que a escola pública tem sim todas as condições para se tornar um espaço incrível! É como José Pacheco diz, é um problema mais humano do que material ou financeiro, afinal, "a escola somos nós e não o prédio".

 

Sérgio Tück

Nascido em São Paulo, vivendo em Atibaia (SP). Formado em Publicidade, Licenciado em Artes e Educação Musical, eterno estudante de Luthieria, Música e Educação. Certificado pelo FNDE/MEC em Políticas Públicas da Educação. Professor de Artes e Musicalização na Rede Pública de Bom Jesus dos Perdões (SP) e em Atibaia. Foi membro do grupo Wadan Taiko Ensemble por 10 anos tendo se apresentado pelo Brasil e no Japão, além de orientar turmas de todas as idades. Também faz das viagens como fonte de pesquisa, aprendizado e vivências, sendo blogueiro no dandoumpulo.com.